Final Fantasy VII
Em Final Fantasy VII, a memória falha, mas o legado não: aquilo que recebemos dos outros continua nos moldando, mesmo quando já não sabemos de onde veio.
Nossa identidade é uma mistura de informações esculpidas pelo tempo, coladas pelos lapsos daquilo que conseguimos lembrar. Somos feitos de nomes, lugares que visitamos, rostos que conhecemos e emoções que vivemos. Comparada à fotografia impressa que resiste à passagem do tempo, a memória humana comporta-se como uma pintura em uma tela exposta à chuva: ela desbota, mistura cores e se ressignifica a cada nova tempestade. Se a memória original muda constantemente, resta saber se a imagem projetada continua representando aquilo que nossos engramas neurais utilizaram como informação para que o pintor continuasse pintando.
A angústia que existe diante da fragilidade de lembrar quem somos é o reflexo da narrativa de Final Fantasy VII. Ali, acompanhamos Cloud Strife, um protagonista que se apresenta ao mundo e a si mesmo sustentado por memórias que ele jura serem suas. No entanto, com o desenvolvimento da história, o protagonista é forçado a tatear no escuro de seu interior e confrontar o abismo que existe entre a lembrança, o trauma e a identidade. Cloud não está apenas enfrentando uma ameaça externa, ele está diante de um quadro pintado após uma tempestade, tentando reconhecer a própria memória de um passado inventado.
Diante desse passado inventado, a verdadeira luta de Cloud é conseguir enxergar além do quadro. É nesse ponto que a narrativa retorna ao passado e nos apresenta Zack, o homem por trás das memórias que Cloud tomou como suas. Aquilo que existe para o protagonista apenas em fragmentos ganha, aos olhos do jogador, um rosto, uma história e uma identidade. Zack deixa de ser apenas a sombra que habita as lembranças de outro personagem e ganha carne, osso, sonhos, relações e escolhas. Ao revelar a origem da mentira de Cloud, a narrativa também confere um novo sentido à existência de Zack: nossas lembranças não morrem no esquecimento, mas permanecem na forma de legado.
A jornada não se dá pelo apagamento do passado ou por um novo recomeço, mas pela dolorosa e necessária reconstrução. Diante das ruínas de sua própria história, Cloud percebe que não pode simplesmente deletar os anos de mentira, sua verdadeira missão é reorganizar os fragmentos dispersos de quem ele realmente foi e unindo o trauma à realidade. É nesse instante que Cloud toca em sua ferida mais estritamente filosófica: não basta cavoucar o próprio interior em busca de uma versão original de si; é preciso ter a coragem de encarar quem se tornou e aceitar a própria imperfeição.
Se a ficção nos ajuda a entender o peso daquilo que carregamos, a realidade nos revela que essa reconstrução nunca é feita de forma isolada. Ao longo da vida, as pessoas que cruzam nosso caminho não partem de mãos vazias; elas passam e deixam pedaços de si em nós. Às vezes, carregamos muito mais dos outros do que de nós mesmos e sabemos exatamente a importância do que veio do outro. Outras vezes, só muitos anos depois percebemos que nossa forma de pensar, amar ou enfrentar uma crise nasceu da convivência com alguém. É aí que o tempo deixa de ser apenas uma linha que separa passado e presente. Ele passa a ser aquilo que transforma, silenciosamente, presença em memória e memória em legado. Não somos uma fotografia estática; somos a soma viva de tudo o que escolhemos pintar.
Trailer oficial:
O trailer de Final Fantasy VII está disponível no YouTube.
Final Fantasy VII
Desenvolvido pela Square (atual Square Enix) e publicado pela SquareSoft, lançado 1997.