Metaphor: ReFantazio
Toda realidade foi, um dia, apenas uma fantasia. Metaphor: ReFantazio é sobre a coragem de imaginar aquilo que ainda não existe.
A fantasia é sempre colocada como algo oposto à realidade. Quando pensamos em fantasia, logo imaginamos mundos impossíveis, criaturas que não existem e situações que só poderiam acontecer dentro da nossa cabeça. Porém, existe outro lado dessa palavra: a capacidade de imaginar algo que ainda não existe e quem sabe poderá existir. Uma sociedade diferente, uma nova forma de enxergar as pessoas, um futuro melhor. Antes de alguma mudança acontecer de verdade, alguém precisa primeiro conseguir imaginá-la.
É exatamente esse o ponto de partida de Metaphor: ReFantazio. O jogo apresenta um mundo de fantasia, mesmo distante da nossa realidade, consegue refletir inúmeros problemas que conhecemos muito bem. Existem povos diferentes, conflitos políticos, religião, poder militar, preconceito e uma sociedade tentando entender qual caminho deve seguir. Quanto mais fantasioso aquele mundo parece, mais reconhecíveis se tornam os problemas das pessoas que vivem nele.
Ao longo da narrativa, diferentes forças tentam apresentar respostas para aquilo que consideram ser o melhor caminho. A igreja apresenta uma tese, os militares representam uma antítese e no meio desse conflito, surge a necessidade de uma síntese. É uma leitura que me remete muito à filosofia hegeliana*: duas forças opostas entram em conflito e a partir disso, uma nova possibilidade pode surgir. Em Metaphor: ReFantazio, essa possibilidade não aparece pronta. Ela precisa ser construída pelas escolhas, pelos diálogos e pela maneira como o protagonista passa a compreender o mundo ao seu redor.
É nesse ponto que os personagens deixam de ser apenas peças dentro de um conflito político e passam a representar aquilo que realmente está em jogo. Strol fala sobre o que significa ser nobre para além de um título, enquanto Eupha carrega no próprio corpo o peso do preconceito por pertencer a uma tribo considerada pagã pela Igreja Sanctista. São personagens que mostram que qualquer discussão sobre política, religião ou sociedade só existe porque existem pessoas vivendo as consequências dessas estruturas. Imaginar um mundo melhor não é apenas decidir quem deve governar, mas entender que tipo de vida queremos permitir que as pessoas tenham.
Talvez seja por isso que a relação entre fantasia e realidade seja tão importante dentro do jogo. Fantasiar não significa necessariamente fugir do mundo real. Em alguns momentos, pode significar justamente adquirir uma nova forma de enxergá-lo. Toda eleição, toda mudança política e toda transformação social também parte de uma disputa entre futuros imaginados. O que existe hoje pode parecer definitivo, mas qualquer realidade já foi, em algum momento, apenas uma fantasia.
No fim, Metaphor: ReFantazio não fala apenas sobre escolher um governante ou decidir qual força deve prevalecer. Fala sobre a capacidade de imaginar uma realidade diferente e ter coragem para construir alguma coisa a partir dela. Fantasiar um mundo melhor não é suficiente para torná-lo real e talvez nenhuma mudança possa existir antes que alguém consiga imaginá-la.
Trailer oficial:
O trailer de Metaphor: ReFantazio está disponível no YouTube.
Metaphor ReFantazio
Jogo desenvolvido pelo Studio Zero e publicado pela Atlus, lançado em 2024.
Hegeliano* ideia de que a realidade e a história estão em constante transformação: conflitos e contradições podem gerar novas formas de compreender e organizar o mundo, ampliando as possibilidades de liberdade humana.