Journal with Witch
O luto não é superado: é atravessado como um deserto, onde o silêncio e a convivência criam o pequeno oásis necessário para continuar vivendo.
A perda de uma pessoa é um evento muito significativo na vida de qualquer um. Sempre que uma pessoa deixa de existir no nosso dia a dia, abre-se uma brecha para uma tempestade de sentimentos que tomam a mente de tal forma que viram um peso invisível, insustentável e notório em nossa rotina. A ausência desta pessoa pode ser sentida de diversas formas, independentemente do grau de parentesco ou relação afetiva. Uma pessoa pode representar inúmeras coisas, e estes sentimentos não são apenas uma tempestade, mas sim um vasto deserto, silencioso, seco e desorientado. Um pequeno oásis no meio de uma rotina para aprender a lidar com a ausência.
Na narrativa de Journal with Witch, acompanhamos a vida de uma jovem estudante chamada Asa, após tudo ter sido mudado por um acidente de carro que tirou a vida de seus pais. Asa, agora precisa aprender a conviver com as ausências de quem um dia já foi seu porto seguro. Para conseguir continuar em frente, Asa conta com a ajuda de sua tia Makio, uma escritora um tanto introspectiva e tímida, que recebe uma missão: cuidar de Asa até ela chegar à maioridade. No apartamento de Makio, é onde Asa cria seu oásis no meio da tempestade de sentimentos que é viver o luto e, neste espaço, existe algo essencial: a honestidade. É através dela que Makio ajuda Asa a seguir em frente, não sendo uma substituta de sua mãe, mas sim sendo um suporte emocional para isso.
O que o luto tem de função na vida de cada pessoa é único. Seguir em frente é conviver um dia de cada vez diante das mesmas coisas, mesmas ações e mesmas situações que você vivia com as pessoas que não estão mais aqui. Através do registro em um diário, Asa consegue assimilar a ausência como algo contínuo que, aos poucos, vai se somando em anotações de análise de seu comportamento e até mesmo do que ela quer para seu futuro. A ajuda de Makio é essencial, já que ela é uma escritora e acaba servindo como uma bússola para Asa se guiar dentro daquele oásis e despejar no papel sentimentos que não consegue verbalizar.
A convivência diária de Asa e Makio abre espaço para abordar uma parte essencial do luto, que é transfigurada no silêncio. O silêncio entre uma refeição e outra, o silêncio na convivência e o silêncio como respeito. Mesmo com uma caminhada conjunta neste deserto, Asa não consegue carregar todo o peso dos seus sentimentos sozinha e conta com a ajuda de sua tia para que isso seja amenizado. Para Makio, também é importante, já que no silêncio — sem Asa perceber — é onde ela consegue também processar a mágoa que sente em relação à irmã que se foi. É no oásis com poucos recursos que a principal energia é a convivência em conjunto.
Mesmo caminhando de mãos dadas ou lado a lado dentro deste deserto, e até mesmo quando o tempo é gentil, o luto não deixa de existir e não deixa de pulsar. Ele continua ali, de lado, entre um dia e outro, e volta às vezes a ocupar nossos pensamentos. É algo incontrolável e involuntário retomar a convivência com o luto; mesmo após sair deste oásis, a areia continua e as cicatrizes também. A obra nos ensina que o objetivo não é “superar” a morte, mas sim aprender a habitar um mundo interno de outra forma, carregando as ferramentas necessárias para encontrar água após a tempestade passar.
Onde assistir:
A primeira temporada de Journal with Witch está disponível em plataformas de streaming como Crunchyroll.
Journal with Witch
Anime baseado no mangá Ikoku Nikki, de Tomoko Yamashita, publicado pela Shodensha em 2017.