Ys IX Monstrum Nox
Entre alquimia, memoria e identidade, Ys IX: Monstrum Nox questiona se a humanidade está na origem de um ser ou na forma como ele sente, escolhe e se relaciona com o mundo.
Ao desenvolver o texto sobre Metaphor: ReFantazio, não fazia ideia de como ele estaria alinhado com a discussão sobre senciência desenvolvida neste texto. Os contextos anteriormente apresentados, como os de teologia, sociedade e, principalmente, fantasia, são experimentados por um indivíduo colocado diante desses elementos como uma espécie de observador e até mesmo participante direto. Para sentir tudo isso, precisamos considerar a capacidade de perceber e experimentar o mundo ao redor. É daí que surge a discussão sobre aquilo que chamamos de senciência, ligada a perguntas antigas e complexas sobre essa experiência.
Desenvolvendo esse tópico, a senciência pode ser entendida como a capacidade de sentir, da dor ao prazer, do medo ao bem-estar. A partir daí, surgem discussões sobre consciência, subjetividade e identidade, já que experimentar o mundo também significa construir uma relação particular com ele. Tudo isso aparece em Ys IX: Monstrum Nox, onde acompanhamos elementos mágicos como alquimia e clonagem sendo utilizados para criar indivíduos a partir de algo que já existiu antes.
Grande parte da trama da nova aventura de Adol se passa dentro e fora da Prisão de Balduq. É naquele espaço que conseguimos perceber uma linha do tempo acontecendo diante dos nossos olhos, conectada a acontecimentos de centenas de anos atras. A prisão funciona como uma fachada para esconder algo muito maior em seu subsolo: um projeto que nasce de perdas irreparáveis causadas pela guerra e do desejo de recriar aquilo que já não pode mais voltar da mesma forma. É nesse ponto que o vínculo, a memória e a alteridade passam a colocar em dúvida o que realmente define uma existência humana.
Essa busca pela própria identidade estabelece um paralelo direto com dilemas contemporâneos sobre inteligência artificial e senciência. Uma IA atual não precisa ser considerada consciente para que nos obrigue a perguntar quais características usamos para reconhecer consciência, subjetividade e humanidade. No jogo, os homúnculos nascem a partir de memórias e informações, mas o que torna essas criaturas interessantes é justamente quando passam a desenvolver relações, empatia, sofrimento e escolhas que não podem ser resumidas apenas àquilo que lhe deu origem.
É nesse momento que a fronteira entre criação e indivíduo começa a desaparecer: essas criaturas deixam de funcionar apenas como extensões de uma origem anterior e passam a construir uma identidade que lhes pertence. Sua humanidade não está apenas na matéria de que são feitas ou no processo que lhes deu vida, mas na forma como passam a existir no mundo, reconhecendo o outro, sofrendo com as próprias escolhas e demonstrando vontade própria.
Ao final, tanto a fantasia de Ys IX: Monstrum Nox quanto os nossos debates reais sobre o futuro da tecnologia nos levam à inúmeras perguntas existenciais. O que o subsolo de Balduq nos provoca a pensar é que a humanidade talvez não esteja apenas em “como alguém nasceu”, mas em como existe no mundo, percebe aquilo que está ao seu redor e se relaciona com os outros. Diante de clones alquímicos ou de sistemas artificiais cada vez mais complexos, as velhas definições biológicas de vida talvez já não sejam suficientes para explicar tudo aquilo que reconhecemos como identidade.
Trailer oficial:
O trailer de Ys IX: Monstrum Nox está disponível no YouTube.
Ys IX: Monstrum Nox
Jogo desenvolvido pelo Nihon Falcom e publicado pela NIS America, lançado em 2021.