A Morte de Ivan Ilitch
A vida é feita de planos adiados, até que o tempo cobra o que deixamos para depois. Ivan Ilitch nos lembra do peso de olhar para trás e perceber que talvez tenhamos vivido pra quase tudo, menos para nós mesmos.
O dia a dia das pessoas, em sua grande maioria, é se organizar para concluir planos e sonhos. O maior desafio é conseguir tirar um plano da mente e colocá-lo em execução. Com o passar dos dias, podemos ir acumulando e empilhando esses planos, adiando sonhos e acreditando na premissa de que: “amanhã eu começo” — só que esquecemos que, talvez, o amanhã não possa chegar.
Com os planos bem alinhados, quero falar sobre Ivan Ilitch, um trabalhador reconhecido, um homem com status e aprovação social. É um ótimo pretexto para acreditar que tudo está certo e continuar vivendo como se aquilo tudo conquistado fosse a maneira certa de ser vivida. Viver diante do reconhecimento dos outros e, principalmente, da aprovação social dá uma falsa sensação de que tudo está bem, mas será que tudo está bem mesmo? Passamos tanto tempo nos organizando para criar planos e não pensamos sobre a forma como tudo isso está sendo executado.
O tempo é um dos maiores inimigos da vida humana, porque nosso corpo não resiste à passagem do tempo. E não só a velhice é algo que pode assombrar o futuro, mas, no presente, o nosso corpo pode — eventualmente — apresentar problemas. Eis que Ivan conhece uma doença que ameaça toda a estrutura de uma vida criada para ser algo próximo do perfeito aos seus olhos. A doença, perto de tudo isso, faz ele pensar que aquilo que construiu por anos em sua vida perde o peso, fica leve, mais leve e frágil quanto a vida.
O convite de refletir sobre o tempo que já passou chega a ser assustador, já que passamos o tempo criando planos e não avaliando tudo que fizemos. Ao adoecer, Ivan passa a ter mais tempo sozinho, depende de outras pessoas para ter o mínimo de dignidade humana e, com isso, analisa o tempo que não volta mais. Observar o que fizemos com o tempo que nos foi dado enquanto tínhamos saúde cria uma comparação importante para analisar se realmente vale a pena utilizar nosso tempo para fazer determinada atividade.
Ao final da vida, o que mais nos assusta não é o fato de que vamos morrer — sim, todos nós iremos morrer um dia —, mas fazer o balanço que nos obriga a olhar para tudo que construímos com o tempo que nos foi dado pode gerar arrependimento, ausência de sentido e, principalmente, uma distância emocional. Talvez a vida seja uma ampulheta que vai caindo grãozinho por grãozinho; cada grão é um plano que não executamos, e olhar para baixo e ver que deixamos muita coisa passar não apenas assusta: é uma tragédia.
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A Morte de Ivan Ilitch
Novela de Liev Tolstói, publicado originalmente em 1886, em nova edição brasileira de 2023.